Ressonâncias
Esta é uma das composições mais ambient que já fiz para a Ordem do Ó.
A evocação da água e das maneiras como esta soa nas suas diversas manifestações (rios, mar, chuva, canalização, etc.) fez-me pensar em sequências de matéria sonora sobreposta, linhas separadas e ondulantes que se uniam em diversos momentos.
O uso de gravações de campo de cursos de água foi uma resposta óbvia. Menos óbvia foi a inclusão de instrumentos de sopro, uma vez que o ar é outro dos 4 elementos que surge muitas vezes em conjunto nas explorações artísticas em torno da Água.
Por outro lado, quase todas as peças musicais que fiz para este bailado consistem em sons de água trabalhados (muitas vezes por convolução consigo mesmos e com outros sons) até se tornarem texturas evocativas, mas distintas, de uma simples gravação.
Descer o Rio
O bater ritmado do shishi-odoshi sempre me fascinou. Quando o Pedro Ramos, coreógrafo, bailarino e diretor artístico da Ordem do Ó, me convidou para criar uma peça mais meditativa, esse som — que tinha gravado numa viagem ao Japão — tornou-se a escolha óbvia. Aproveitando ainda estar em terras nipónicas, gravei também um trecho com uma flauta japonesa que me acompanha nas criações dos últimos anos. Um conjunto de acordes de piano, estendidos até perderem o seu significado melódico e harmónico, tornou-se a base desta composição.
Água Rasteira
Nunca me considerei minimamente capaz ao piano, mas há momentos em que me vejo atraído pelo seu timbre, aliado aos sons da kalimba e de gotas de água. O componente percussivo do ataque, e a ressonância da corda, dão-lhe uma qualidade difícil de atingir com outros instrumentos. Esta é, por isso, uma peça bastante convencional na forma como aborda a estrutura musical, a harmonia, as melodias e até a instrumentação. Ainda assim, é uma daquelas de que me orgulho pela consistência, coerência e pelo efeito que teve no espetáculo quando conjugada com a coreografia.
Grânulos
Uma peça onde tentei, propositadamente, evocar a distorção inerente à gravação amadora em fita magnética. A primeira versão desta música tinha o saxofone a soar cristalino, mas não me parecia enquadrar-se no ambiente que pretendia transmitir — ainda mais depois de juntar a voz de uma das bailarinas. Surgiu então a ideia de gravar o som em cassete, para depois voltar a digitalizar. No final, ficou uma peça que evoca algumas das características da música de Terry Riley, e até de Vangelis, o que me agrada bastante.